terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Guerra e Paz

Por Mariana Ferrazoli Infantozzi















A exposição realizada no Memorial da América Latina, em São Paulo, traz pela primeiríssima vez restaurados, os painéis “Guerra” e “Paz” criados por Cândido Portinari (1903 - 1962). Lá, também estão expostos estudos do pintor para essa obra, uma ala digital, com projeções e vídeos, uma linha do tempo, usando imagens em movimento, com a trajetória completa do pintor e por último um setor educativo, com visitas guiadas e uma programação de oficinas.
De acordo com informações da exposição, as obras “Guerra” e “Paz”, foram feitas sob encomenda do governo brasileiro na década de 50, especialmente para a sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York. As obras jamais tinham sido retiradas de lá até então e tinham acesso restrito. Foi por uma iniciativa do Projeto Portinari, envolvendo o Governo Federal, instituições internacionais, empresas estatais e privadas, que esse projeto pôde ser realizado. As obras foram restauradas no Rio de Janeiro, em um ateliê aberto ao público, montado no Palácio Gustavo Capanema. Antes as obras já tinham sido expostas no palco do Teatro Municipal carioca, entre 22 e 30 de dezembro de 2010. O mais incrível é que mais de 40 mil pessoas foram visitá-las.
Ao chegar à ala principal da mostra, onde se encontram as duas obras principais, a sensação é indescritível, um choque perante o que se vê. Não dá para imaginar a grandeza das telas, elas são imensas, parecemos uma miniatura diante delas, é praticamente estar em frente a um prédio de quatro andares. O magnífico é a forma como Portinari pinta a “Guerra” e a “Paz”, sendo a primeira, uma representação não de armas, exércitos e lutas, mas sim a dor da morte e da perda de um ente querido, que em minha opinião é a pior parte da guerra. Já a paz, realmente transmite uma serenidade e calma, que só vendo pode ser sentida. Ela é retratada como um ambiente da mais tranquila convivência, um lugar onde os adultos trabalham, as crianças brincam e o clima é a mais perfeita sensação de paz. O drama e a esperança são sentidos e passados de forma grandiosa ao nos defrontarmos com as obras.  
 Achei magnífica a forma como foi montado o espaço, pois o ambiente é completamente escuro com iluminações no teto que focavam apenas na “Guerra” e na “Paz”, dessa forma sua atenção e olhar não são desviados e mantêm-se fixos nas duas obras primas. É preciso tempo para analisar todos os aspectos de cada painel separadamente, pois há uma mistura de cores, formas e figuras, que são usadas e postas da forma de Portinari, ou seja, percebe-se que o artista tem um estilo único e especial que não é confundido de forma alguma.
Além das duas obras, um telão, colocado ao centro, mostrava com tecnologia de ponta, alguns elementos de cada painel. Para vocês entenderem melhor, enquanto a imagem dos três tigres da “Guerra” era mostrada no telão, simultaneamente uma luz focava o lugar exato na obra “Guerra” onde estavam esses três tigres. Eram então, mostrados os estudos feitos por Portinari desses tigres e ainda sua imagem era ampliada e projetada a ponto de podermos enxergar cada traço e pincelada do artista. O mesmo era feito para outros elementos presentes nas duas telas, enquanto uma voz ao fundo fazia as explicações. Essa foi à segunda parte da exposição que mais me impressionou, porque é demais entender como o pintor pensou e realizou cada desenho separadamente e podermos analisá-los naquele momento.

 
As duas fotos mostradas acima são da "Paz" e "Guerra",  os dois últimos paineis criados por Candido Portinari (1903-1962). Possuem cada um, 14m de altura por 10m de largura e são compostos por 28 placas de madeira compensada naval, com 2,2m de altura por 5m de largura e pesam 75 quilos cada uma.
Disponível em: http://www.portinari.org.br/ppsite/index.htm

Eu em frente ao painel "Paz"
 
Eu em frente ao painel "Guerra".

Foto do telão em que é passado um filme de 15 em 15 minutos explicando as obras. Trata-se da parte digital da mostra, que utiliza tecnologia de ponta para fazer projeções e vídeos sobre as obras expostas.

Homem restaurando uma das obras.
Disponível em: http://www.memorial.sp.gov.br/memorial/AgendaDetalhe.do?agendald=2346
     
Ainda preciso dizer que em frente ao Salão de Atos, onde ficam os dois painéis, há outra mostra na Galeria Marta Traba, em que estão expostos cerca de 100 estudos preparatórios para “Guerra” e “Paz”, incluindo obras de coleções internacionais vindas de Londres e Milão. Além disso, documentos históricos, como cartas, recortes de jornal e fotografias, que contam a repercussão e trajetória de criação dos painéis, também podem ser vistos. Amei ver tudo que estava nessa galeria, pois podemos entender tudo que se passa por traz de uma criação dessas. O que mais gostei na realidade foi o filme, que é passado em um espaço especifico nessa ala da exposição. Nesse vídeo várias pessoas envolvidas no projeto Guerra e Paz, incluindo o filho de Portinari, João Candido Portinari, o diretor geral do projeto, falam a respeito de todo o processo de preparação e realização da vinda das obras para o Brasil. Podemos ficar por dentro de como é concretizar um projeto desses e ainda saber como é feito o trabalho de restauração, que não é nada fácil e exige uma quantidade enorme de profissionais trabalhando em equipe.

 
Nesta foto estou na entrada da exposição que apresenta os estudos realizados por Candido Portinari antes de pintar o conjunto Guerra e Paz. ela é realizada na Galeria Marta Traba, que fica logo em frente ao Salão dos Atos Tiradentes, onde estão expostas as duas obras principais.


Na parte externa do memorial, foram montados murais interativos referentes às obras "Guerra" e "Paz".
 
Eu termino o meu post, recomendando essa exposição que merece ser visitada não só pela força de vontade do Projeto Portinari em trazer as obras para o Brasil, mas também em memória a um importantíssimo artista brasileiro do século passado, que com certeza faz jus de ter seu trabalho homenageado e prestigiado. Cândido Portinari, não teve autorização do governo americano para ir à inauguração de sua obra, por ser comunista. O pintor faleceu em 1962, intoxicado pelo chumbo presente nas tintas que usava, o seu próprio instrumento de trabalho foi a arma letal para o encerramento de sua carreira, o que evidência sua paixão pela arte. “Guerra” e “Paz” foram suas últimas obras e certamente as mais importantes, que estando em São Paulo são merecedoras de nossa atenção.


Candido Portinari posa para uma foto enquanto trabalhava nas obras.
Disponível em: http://www.memorial.sp.gov.br/memorial/AgendaDetalhe.do?agendaId=2346


Serviço da exposição:

Guerra e Paz, de Portinari – Exposição dos painéis pintados por Candido Portinari

Horário: terça a domingo, das 9h às 18h
Local: Fundação Memorial da América Latina, Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664. Espaços: Salão de Atos, Galeria Marta Traba e Biblioteca Latino-americana Victor Civita.
Período: 7 de fevereiro a 21 de abril de 2012

ENTRADA FRANCA

Sites relacionados:

  • Site da Fundação Memorial da America Latina:
  • Matéria na Revista Nossa América sobre Portinari:
  • Site do projeto Guerra e Paz:

Vídeos relacionados:





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